Meditação: a felicidade do aqui e agora Ago26

Tags

Outras Publicações

Ginga - A Marca da Família Angolana

Meditação: a felicidade do aqui e agora

Se pensa que meditar é coisa de monges solitários, desengane-se. A ciência tem vindo a confirmar o que as tradições antigas já diziam: a meditação é uma das melhores ferramentas para nos ajudar a lidar com as agruras do dia a dia.

Ah, que bom seria ter uma vida isenta de stresse, dominar todas as oscilações emocionais e, já agora, pedir não custa, ter aquele ar zen e sempre sorridente do Dalai Lama… Para quem está de fora, os meditantes podem parecer uma fauna estranha, parte de um clube seleto na posse de um segredo qualquer. Alguns famosos, como Sting, Richard Gere, Oprah ou David Lynch – que criou uma fundação para promover a meditação nas escolas – têm ajudado a divulgar uma prática que muitos associam ainda a monges em mosteiros no planalto asiático. Mas a meditação, asseguram famosos, monges e cientistas, quando nasce é para todos, e sobretudo, garantem-nos, não é um bicho de sete cabeças.

Trata-se simplesmente de treinar a arte da concentração, explica o monge budista Matthieu Ricard no livro ‘A Arte de Meditar’. Doutorado em Genética Molecular, Ricard foi um dos monges que se submeteu a testes cerebrais em estudos científicos sobre a meditação e os resultados valeram-lhe o título de ‘Homem mais feliz do mundo’. Nada mau, mas consta que os resultados foram obtidos após anos de prática em mosteiros do Nepal. Começar agora, num prédio em Benfica, será igual?


Dá saúde e faz crescer… o bem-estar

A crer nos estudos, feitos com pessoas comuns e monges na Universidade de Wisconsin, EUA, seja em Massamá ou na Índia, meditar 20 minutos por dia durante seis a oito semanas é o suficiente para notar efeitos na diminuição da ansiedade, dor, raiva e tendência para a depressão. Além disso, neste curto período de tempo o sistema imunitário parece sair reforçado, há um reforço da capacidade de concentração e aumento do bem-estar. Boas razões para começar? Sim, mas há mais.

Até agora, o cérebro era visto como algo estático, com um número de neurónios fixo à nascença que não se reproduziam e diminuíam com a idade. Hoje em dia sabe-se que o cérebro é dotado de neuroplasticidade, ou seja, é capaz de se modificar estruturalmente ao longo da vida. Os pensamentos ativam determinados circuitos neuronais e quanto mais os usamos mais eles são reforçados. A prática da concentração em sentimentos como a compaixão, por exemplo, ativa a zona do cérebro ligada a emoções positivas e faz com que esta se torne mais forte. Com a prática é possível alterar completamente padrões de reação emocional negativos. É isto que explica Matthieu Ricard: “Treinar o cérebro para desenvolver certas qualidades humanas é tão normal como aprender a andar, a ler e a escrever, atividades que não achamos anormal passar anos a aprender”, garante. Portanto, ainda dá algum trabalho, o que explica que seja tão comum desistir ao fim de umas poucas tentativas. Embora não pareça, não é fácil ficar sentado sem fazer nada.

Dicas para começar: foque-se nas razões porque quer meditar, se tiver uma motivação é mais fácil. Comprometa-se. Faça da meditação um hábito que não questiona, como lavar os dentes. Comece devagar e estabeleça metas razoáveis. Por fim, não se preocupe em sentir alguma coisa durante a meditação. Os efeitos importantes, assegura Matthieu Ricard, sentem-se no dia a dia, quando não estiver a meditar.
Meditações para todos os gostos

Há técnicas de meditação com milénios mas também modalidades bastante recentes. É importante descobrir a que mais se adapta à sua forma de ser para colher mais benefícios. Se a ideia de ficar sentada por 10 minutos lhe faz comichão, talvez o zen não seja para si, mas pode experimentar o tai-chi ou a dança sufi… Se gosta de cantar, práticas com entoação de mantras são uma boa ideia… O mais importante é comprometer-se a praticar de forma regular. Meditar é ginástica cerebral. Faça-o e pronto. A persistência faz a diferença. É melhor 10 minutos por dia todos os dias do que sessões de horas seguidas uma vez por mês.

– Meditação Budista: Há muitas técnicas baseadas nos ensinamentos de Buda, para quem o objetivo da meditação era sobretudo libertar a mente das emoções perturbadoras. No budismo theravada, considerado a escola mais antiga e ortodoxa, pratica-se a meditação samatha, também chamada meditação para a tranquilidade, em que se busca a pacificação da mente através da concentração num objeto, geralmente a respiração ou um objeto no exterior. Já na meditação vipassana, também chamada de prática da atenção vigilante, treina-se uma atenção lúcida e não interventiva ao corpo e à mente. A ideia é conseguir permanecer sentado e imóvel em estado de observação. O budismo zen, que se desenvolveu a partir da China, ensina a meditação zazen, em que também se cultiva a imobilidade na posição sentada, e o kinhin, em que se medita a caminhar, prestando atenção a cada movimento.

– Meditações Hinduístas: Os Vedas, textos espirituais da Índia com mais de 4 mil anos, estão cheios de ensinamentos sobre meditação, nomeadamente nos textos sobre yoga, que é também uma forma de meditação. Na tradição védica, a meditação é considerada uma via para se atingir a iluminação mas com objetivos mais modestos também se colhem benefícios. Há muitas modalidades diferentes, desde a concentração do olhar num yantra (símbolo complexo, como o símbolo do Om) ou mandala (um desenho geralmente com formas geométricas) até à repetição de um som ou mantra.

– Meditações Activas: Para meditar não é preciso estar sentado. É este o princípio explorado por práticas orientais como o tai-chi, uma antiga arte marcial chinesa em que os movimentos são feitos muito lentamente coordenando os gestos com a respiração, e o chi-kung, uma técnica chinesa de manipulação consciente da energia que combina respiração, posturas, movimentos e meditação.

As meditações dinâmicas do Osho são bastante mais recentes. O guru indiano criou modalidades como a meditação kundalini ou nataraj a pensar nos ocidentais, que sofrem do ‘mal da agitação mental’ e precisam de exorcizar emoções reprimidas antes de se conseguirem sentar a meditar. Princípio semelhante segue a antiga tradição mística do Islão, o sufismo. Na prática do giro sufi, a ideia é girar sobre si mesmo, de pé com os braços estendidos à altura dos ombros. O olhar fixo numa das mãos é o segredo para não cair, o que exige concentração extrema. No fim, experimenta-se a quietude.

Meditação Transcendental: Criada pelo indiano Maharishi Mahesh Yogi nos anos 60, tornou-se um fenómeno no ocidente depois de popularizada pelos Beatles, que chegaram a seguir o guru até à sua academia de meditação nos Himalaias. O realizador David Lynch e a apresentadora Oprah são entusiastas desta técnica, baseada na repetição mental de um mantra individual ensinado por um instrutor. Depois há que praticar duas vezes por dia durante 15 a 20 minutos. A organização tem centros em todo o mundo.

Fonte: Activa