Pérola: “Muitos dos que viveram a guerra em Angola perderam coisas. Nós ficámos sem nada” Mai02

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Pérola: “Muitos dos que viveram a guerra em Angola perderam coisas. Nós ficámos sem nada”

Cantora revelou ao SAPO memórias da infância no Huambo

Pérola: “Muitos dos que viveram a guerra em Angola perderam coisas. Nós ficámos sem nada”

Jandira é uma mulher de momentos e poucas preferências. Uma filha do Huambo, que não esquece o sabor das nêsperas da sua cidade natal nem a guerra que a fez partir. Pérola é a cantora que inspira gerações e que conquistou um lugar entre as divas de Angola.

O SAPO encontrou-se com Pérola para falar dos sucessos e conquistas, mas quis conhecer melhor a mulher para além da artista, Jandira, seu nome de baptismo.

Esta terça-feira celebrou mais um aniversário, o segundo como mãe. Do alto dos seus 2 anos, a pequena Valentina já se sente a pérola da casa e, como tal, canta e dança ao som de “Fica Parado” e outros êxitos, uma homenagem de fazer babar qualquer mãe, conta a cantora.

Os momentos em família são aproveitados ao máximo, pois a correria e a vida de artista obriga a que fiquem algum tempo afastadas, mas Pérola não dramatiza. “Toda a mulher que trabalha e enfrenta a correria deste século vive a mesma coisa que eu”, lembra.

Muitas horas em estúdio, dias na estrada, concertos, eventos e entrevistas fazem parte do seu dia-a-dia. Para divulgar o novo disco, “Mais de Mim”, Pérola viajou até Portugal, onde o SAPO acompanhou uma típica manhã de trabalho.

O dia começou cedo com uma apresentação num dos programas matinais mais vistos da televisão portuguesa. O público deixou-se contagiar pelo ritmo de Pérola e ficou a conhecer um dos mais recentes temas, “Tudo Para Mim”. Tempo ainda para a selfie da praxe e até para uma recordação com a jovem fadista Cuca Roseta.

Cuidados de uma diva

Manter a boa forma exige uma série de exercícios físicos e mentais que a preparam para os desafios do dia-a-dia. Descansar bem e fazer um aquecimento vocal é essencial para uma boa performance.

O look não é difícil de escolher. O momento e a disposição ajudam a decidir as cores, os sapatos e os acessórios perfeitos para aquele dia.

Pérola reconhece a importância de uma alimentação cuidada, algo que procura ter em atenção, mas confessa: “Quando estou a trabalhar emagreço com facilidade e tenho uma alimentação mais desregrada. Neste momento, estou um bocadinho magra porque tive um show importante há pouco tempo. Precisava de ganhar uns três quilos.”  

Acredita que, em Angola, as mulheres se querem carnudas e nem os estereótipos de beleza ocidentais a fazem ceder. Além disso, confessa ser um bom garfo e que apesar de não morrer de amores pelo papel de cozinheira, é a primeira a aparecer quando o assunto é comer. 

Infância e lições da guerra

Antes prosseguir para uma entrevista a um canal de televisão dirigido à comunidade africana, Pérola fala-nos um pouco sobre a sua infância e sobre a devastação que a guerra trouxe à sua família.

“Vivia no sul de Angola, no Huambo, e tinha 8 ou 9 anos quando a guerra chegou. Em 1992 tivemos de nos mudar. Viemos viver para Luanda para casa de uns tios que nos ajudaram bastante. Muitos dos que estiveram em Angola na época da guerra perderam coisas, nós fomos daqueles que ficaram sem nada, não tínhamos absolutamente nada. Nessa altura aprendi a valorizar o pouco que a vida nos dá”, recorda.

Três filhos de uma mãe guerreira tiveram de se adaptar a uma nova realidade na capital e recomeçar do zero. Os irmãos do Huambo iam para a escola à tarde com as batas que os primos usavam de manhã e as lições de vida iam surgindo. A união familiar e a garra das mulheres da sua família ficariam gravadas na memória e na personalidade. 

“Acho que a minha obsessão por sapatos começou naquela época. O meu tio David ofereceu-me uns ténis azuis que me apertavam, mas eram os únicos que tinha. Era difícil ir para a escola com eles. Tive de aprender a gerir aquela dor e foi aí que comecei a sonhar com sapatos”, conta a cantora.

Hoje pode comprar os sapatos e as malas (outra das suas paixões) que mais gosta, mas não é isso que a preenche. Ver a filha assistir aos seus videoclipes como se de músicas de embalar se tratassem, isso sim, é motivo de verdadeira felicidade. Sonha tornar-se uma mãe tão generosa, alegre e carinhosa como a que teve e transmitir à filha a força das mulheres da sua linhagem.

Pérola gostaria de ter cinco filhos, mas com a barreira dos 30 ultrapassada e projectos profissionais no horizonte acha difícil concretizar esse desejo. Mas antecipa “no próximo ano, se Deus quiser, quero ter mais um filho”

Povo alegre mas a perder valores 

Admira a alegria e criatividade do povo angolano e orgulha-se da sua identidade. Como pontos positivos da sua Angola realça também a riqueza natural, que considera pouco explorada em alguns aspectos.

Por outro lado, vê um povo que perdeu muito numa guerra ainda tão recente. Jovens que foram educados nas ruas e, por isso, mais vulneráveis ao apelo da criminalidade. “Quando não se tem uma base muito forte acabamos por ser muito influenciados pelo que não é nosso e perdem-se alguns valores”, acrescenta.

A música, no seu entender, pode ser uma escapatória para muitos destes jovens. Acredita que, tal como no seu caso, a dedicação e o trabalho podem fazer com que a partir de um hit se consiga, aos poucos, construir uma carreira.     

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